Relativo ao post de hoje em rocha on the horizon
(videos sobre Trieste na barra ao lado)
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Quem? Um rosto pálido circundado por pesadas peles perfumadas. Os movimentos dela são tímidos e nervosos. Ela usa um monóculo.
Sim: uma sílaba breve. Um riso breve. Um breve bater de pálpebras.
Teia de aranha sua caligrafia, traçada longo e fino com tranqüilo desdém e resignação: uma garota de categoria.
Me solto numa onda fácil de fala cálida: Swedenborg, o pseudo-Areopagita, Miguel de Molinos, Joachim Abbas. A onda passa.
Sua colega de classe, retorcendo o corpo torto, ronrona num italiano vienense sem ossos: Che coltura!
As longas palpebras batem e se alçam: uma ponta de agulha em brasa pica e palpita na íris de veludo.
Saltos altos estalam seco nas ressonantes escadas de pedra. Ar de inverno no castelo, cotas de malha enforcadas, castiçais de ferro tosco por sobre as espirais das espiraladas escadas. Tiques e taques de saltos altos, ecos altos e ocos. Alguém lá embaixo quer falar com a senhorita.
Ela nunca assoa o nariz. Uma figura de linguagem. O menor em lugar do maior.
Moldada e amadurecida: moldada no torno dos casamentos consangüíneos e amadurecida na estufa da solidão da sua raça.
Um campo de arroz perto de Vercelli sob cremosa neblina de verão. As asas do seu chapéu desabado, sombra sobre seu sorriso falso. Sombras raiam seu rosto falsamente sorridente, surrado pela luz quente e cremosa, cinzentas sombras leitosas debaixo do queixo, estrias de amarelo gema nas sobrancelhas úmidas, ranço amarelo palpitando dentro da polpa fofa dos olhos.
Uma flor dada por ela para minha filha. Frágil dom, frágil doadora, frágil criança de veias azuis.
Pádua longe além do mar. A meia-idade silenciosa, noite, escuridão da história dorme na Piazza delle Erbe sob a lua. A cidade dorme. Sob os arcos nas ruas escuras perto do rio os olhos das putas catam fornicadores.
Cinque servizi per cinque franchi. Uma escura onda de sentido, de novo e de novo e novamente.
Olhos meus falham na treva, falham os olhos,
Olhos meus falham na treva, amor.
De novo. E só. Escuro amor, escuro ansiar. E só. Escuridão.
Boca da noite. Cruzando a piazza. Primeva tarde pousando nos prados verde salsa, pingando na moita neblina e sereno. Ela acompanha a mãe com graça de garça, a égua conduzindo sua jovem potranca. Primeva boca da noite molda suave as ancas elegantes e ambas, o pescoço macio e insinuoso, o crânio de fino esboço.
Eva, paz, a neblina do espanto... Hillô! Cavalariço! Hillohô!
Papai e as garotas colina abaixo, a cavalo num tobogã: o sultão e seu harém. Casada com o gorro e o casaco, botas trançadas em esperto ziguezague sobre a língua do sapato quente de carne, a curta barra tensa em volta das formas curvas dos joelhos. Um lampejo branco: um floco, um floco de neve:
E quando lá se for ela pra longe
Lá esteja eu pra ver!
Saio correndo da tabacaria e grito seu nome. Ela vira e pára a fim de ouvir minhas palavras atrapalhadas falando de lições, horas, lições, horas: e devagar as faces pálidas se inflamam com uma adorável luz opala. Calma, calma, não tenha medo!
Mio padre: ela faz as coisas mais simples com sofisticação. Unde derivatur. Mia figlia ha una grandissima ammirazione per il suo maestro inglese. O rosto do velho, simpático, sangüíneo, com acentuados traços judaicos e longos bigodes grisalhos, vira para mim quando a gente desce a colina junto. Ó! Maravilhosamente dito: cortesia, benevolência, curiosidade, confiança, suspeita, naturalidade, frágil idade, confidência, franqueza, urbanidade, sinceridade, solicitude, pathos, compaixão: uma mistura maravilhosa. Meu Santo Inácio de Loyola, valei-me, e depressa!
Este coração está frustrado e triste. Atravessado de amor?
Lábios lúbricos longamente lânguidos: moluscos de sangue lúgubre
Móveis nuvens sobre a colina quando eu levanto os olhos da noite e lama. Neblinas pênseis sobre as árvores úmidas. Uma luz no quarto em cima. Ela está se vestindo para ir ao teatro. Há fantasmas no espelho ... Luzes! Luzes!
Uma pessoa adorável. Meia-noite, depois do concerto, sempre subindo a via San Michele, estas palavras foram ditas em surdina. Vai com calma, Jamesy! Por acaso você nunca andou pelas ruas de Dublin de noite soluçando um outro nome?
Cadáveres de judeus jazem em minha volta apodrecendo na tumba do seu campo-santo. Aqui está o túmulo do seu povo, pedra preta, silêncio sem esperança ... Meissel cheio de espinhas me trouxe aqui, Lá está ele atrás daquelas árvores com a cabeça coberta junto à tumba da sua mulher suicida, como é que foi que aquela mulher que dormia em sua cama acabou desse jeito ... A tumba do seu povo e sua: pedra preta, silêncio sem esperança: e tudo está preparado. Não morra!
Ela levanta os braços no afã de abotoar atrás do pescoço uma vestte de gaze preta. Não consegue: não, não consegue. Ela se volta para mim sem dizer palavra. Levanto os braços para ajudá-la: seus braços caem. Seguro as pontas da tênue teia e puxando para abotoá-las vejo pela abertura do manto seu corpo esguio justinho na combinação laranja. A combinação se solta dos laços sobre os ombros e cai devagar: um corpo nu esguio e tenro cintilando escamas prateadas. Cai devagar sobre a bunda roliça de esbelta pratta polida e ao longo do rego da bunda, uma sombra de prata baça... Dedos, frios e calmos e ativos... Um toque, um toque.
Pequeno hálito fino insensato e inevitável. Mas se incline e ouça: uma voz. Um pardal debaixo das rodas do Juggernaut, trêmulo estremecedor da terra. Por favor, senhor Deus, grande senhor Deus! Adeus, vasto mundo!... Aber das ist eine Schweinerei!
Grandes laços em seus finos sapatos bronze: esporas de um bichinho mimado.
A dama avança depressa, depressa, depressa... Ar puro na estrada das terras altas. Trieste está acordando cruamente: crua luz do sol sobre a barafunda de seus tetos de telha parda, tartaruguiforme; uma multidão de percevejos prostrados à espera de uma libertação nacional. Belluomo se levanta da cama da mulher do amante da sua mulher: a dona de casa já está de pé, olhos de azeviche, um pires de ácido acético na mão... Ar puro e silêncio na estrada das terras altas: e cascos. Uma garota a cavalo. Hedda! Hedda Gabler!
Os vendedores oferecem em seus altares as primeiras frutas: limões manchados de verde, cerejas jóia, pêssegos acanhados com folhas dilaceradas. A carruagem passa através da aléia de barracas de lona, os raios das rodas girando no brilho.
Saiam da frente! O pai e o filho na carruagem. Têm olhos de coruja e sabedoria de coruja. A sabedoria de coruja olha através de seus olhos cismando sobre o saber de sua Summa contra Gentiles.
Ela acha que os cavalheiros da Itália tiveram toda a razão em expulsar Ettore Albini, o crítico do Secolo, da platéia porque ele não se levantou quando a orquestra tocou a Marcha Real. Ela ouviu isso durante o jantar. Sim. Eles amam seu país quando têm certeza de que país se trata.
Ela ouve: virgem mais que prudente.
Uma saia recolhida pelo brusco mover de seu joelho; a bainha branca e rendada de uma anágua levantada além do decoro; o véu da meia esticada na perna. Si pol?
Toco com delicadeza, cantando de leve, a canção lânguida de John Dowland. Loth to depart: eu também parto a contragosto. Aquela idade está aqui e agora. Aqui, desabrochando da escuridão do desejo, os olhos que embaciam o oriente que amanhece, seu tremeluzir o tremeluzir da espuma que encobre a latrina da corte de James o nojento. Aqui há vinhos feito âmbar, descaídas agonias de áreas doces, a pavana impávida, lindas damas distintas paquerando das sacadas com bocas chupadoras, as putas de cara bexiguenta e jovens esposas que, se dando com prazer a seus estupradores, se grudam e grudam de novo.
Na crua velada primavera matutina flutuam raros aromas da manhã Paris; anis, serragem úmida, massa de pão quente: e quando atravesso o Pont Saint Michel as águas azul-aço despertam gelando meu coração. Elas rastejam e raspam a ilha onde tem gente vivendo desde a idade da pedra.....Brilho baço na vasta igreja de gárgulas. Está frio como naquela manhã: quia frigus erat. Nos degraus do altar lá no alto, nus como o corpo do Senhor, os sacerdotes prostrados em débil oração. A voz de um leitor invisível voa, entoando a lição do profeta Oséias. Haec dicit Dominus: in tribulatione sua mane consurgent ad me. Venite et revertamur ad Dominum.... Ela de pé ao meu lado, pálida e gélida, vestida com as sombras do templo cor de pecado, o cotovelo frágil no meu braço. Sua carne lembra o arrepio daquela crua manhã velada, tochas às pressas, olhos cruéis. Sua alma está cheia de amargura, treme e choraria. Por mim não chore, filha de Jerusalém!
Troco Shakespeare em miúdos para a dócil Trieste: Hamlet, reporto, que é muito afável com os simples e gentis é áspero apenas com Polonius. Quem sabe, um idealista empedernido, ele só vê nos pais da sua amada grotescas tentativas por parte da natureza de reproduzir a imagem dela ................ Você notou?
Ela caminha na minha frente ao longo do corredor e enquanto anda uma.mecha preta de seu cabelo lentamente se desata e cai. Lentamente se desatando, cabelos caindo. Ela não sabe e caminha em minha frente, simples e altiva. Assim ela passou por Dante com orgulho singelo e assim, sem sombra de sangue ou estupro, a filha dos Cenci, Beatrice, para a morte:
................ Ata
Meu cinto por mim e amarra este cabelo
Num nó bem simples.
A criada me diz que tiveram que levá-la para o hospital às pressas, poveretta, ela sofreu tanto, tanto, poveretta, é muito grave..... Me afasto da sua casa vazia. Sinto que estou a ponto de chorar. Ah, não! Não vai ser desse jeito, num instante, sem uma palavra, sem um olhar. Não, não! Minha sorte dos diabos não vai me falhar agora!
Operada. O bisturi do cirurgião penetrou em suas entranhas e retirou-se, deixando em seu ventre a crua marca dentada de sua passagem. Vejo seus sofredores olhos de um negro total, lindos como os olhos de um antílope. Ah ferida malvada! Deus sacana!
Mais uma vez em sua cadeira perto da janela, palavras felizes em sua língua, riso feliz. Um pássaro piando depois da tempestade, feliz que sua vida bobinha escapou das garras de um senhor epilético e doador da vida, piando contente, piando e trinando com todo o coração.
Ela diz que, fosse o "Retrato do Artista" franco apenas por amor à franqueza, ela teria perguntado por que eu o tinha dado a ela para ler. Ah você teria, teria mesmo? Uma dama das letras.
Lá está ela de preto no telefone. Mínimos risos tímidos, gritinhos, fluxos de fala tímida bruscamente quebrados.... Parleró colla mamma..., Vem! chô, chô! Vem! A franga preta está com medo: mínimos íluxos bruscamente quebrados, gritinhos tímidos: está chamando sua mama, a senhora galinha.
Loggione. As paredes encharcadas exalam um vapor úmido. Uma sinfonia de cheiros funde a massa de formas humanas amontoadas: fedor azedo de sovacos, laranjas estraçalhadas, ungüentos de peitos, derretendo, água de resina de lentisco, o bafo de jantares de alhos sulfurosos, fosforescentes peitos fedidos, opopánace, o suor franco da mulherada casada e por casar, o fedor ensaboado dos homens.... A noite inteira fiquei olhando pra ela, a noite inteira vou vê-la; cabelos trançados e levantados e rosto oval e calmos olhos suaves. Uma fitinha verde sobre os cabelos e em torno do corpo um vestido bordado de verde: o tom da ilusão do vidro vegetal da natureza e da erva ao vivo, o cabelo das sepulturas.
Minhas palavras em sua mente; frias pedras polidas afundando num brejo.
Aqueles frios dedos serenos tocaram as páginas, imundas e lindas, onde minha vergonha vai brilhar para sempre. Frios dedos serenos e puros. Será que nunca erraram?
Seu corpo não tem cheiro: uma flor inodora.
Nas escadas. Uma frágil mão fria: timidez, silêncio. olhos escuros lânguidos e líquidos: cansaço.
Turbilhões de vapor cinza sobre o banhado. Seu rosto, como estava cinza e solene! Emaranhados cabelos úmidos. Seus lábios apertam suave, o hálito sofredor se solta. Beijada.
Minha voz, morrendo nos ecos de suas palavras, morre como a voz exaustisábia do Eterno chamando Abraão através dos ecos das colinas. Ela se encosta contra a parede acolchoada: feições de odalisca no escuro luxúria. Seus olhos beberam meus pensamentos: e dentro da úmida morna submissa escuridão convidativa da sua feminilidade minha alma, também se dissolvendo, derramou e verteu e transbordou uma semente líquida e abundante...... Agora coma-a quem quiser!....
Quando estou saindo da casa de Ralli cruzo com ela de repente quando nós dois estamos dando esmola para um mendigo cego. Ela corresponde a meu súbito cumprimento virando a cabeça e desviando os negros olhos de basilisco. E col suo vedere attosca l' uomo quando lo vede. Obrigado pela frase, mestre Brunetto.(7)
Estendem sob meus pés tapetes para o filho do homem. Eles esperam até que eu passe. Ela está de pé na sombra amarela da sala de entrada, um manto xadrez escudando da friagem seus ombros desabados: e quando paro maravilhado e olho em minha volta ela me cumprimenta hibernal e sobe as escadas me dardejando por um momento de seus olhos malemolentes e rasgados um jato de veneno licoroso.
Um pano verde-ervilha enrugado e macio cobre a poltrona. Um quartinho parisiense. A cabeleireira estava deitada aqui agorinha mesmo. Beijei a meia e a barra de seu vestido cor de ferrugem empoeirada. É a outra. Ela. Gogarty veio ontem para ser apresentado. Ulysses é a razão. Símbolo da consciência intelectual. Irlanda então? E o marido? Medindo o corredor com passos de chinelo ou jogando xadrez contra si mesmo. Por que é que estamos aqui? A cabeleireira estava deitada aqui agorinha mesmo, esmagando minha cabeça entre seus joelhos musculosos.... Símbolo intelectual da minha raça. Ouça! Caiu a tristeza profunda. Ouça!
– Não estou bem certo que tais atividades da mente ou do corpo possam ser chamadas de insanas –
Ela fala. Uma voz fraca vinda de lá além das estrelas frias. Voz de sabedoria. Continue falando! Ah, diga de novo, me faça sábio! Esta voz eu nunca ouvi.
Ela serpenteia até mim por cima da poltrona enrugada. Não consigo me mover nem falar. Chegada serpenteante daquela carne nascida nas estrelas. Adultério da sabedoria. Não. Eu vou. Vou, sim.
– Jim, amor! –
Suaves lábios chupando beijam minha axila esquerda: um beijo serpente em veias miríades. Fervo! Me retorço como uma folha que queima! Da minha axila direita salta um dente de fogo.
Uma cobra estelar me beijou: uma gélida serpente da noite. Estou perdido!
– Nora! –
Jan Pieters Sweelink. O nome esquisito do antigo músico holandês faz toda a beleza parecer esquisita e remota. Ouço suas variações para cravo sobre uma velha ária: Juventude tem fim. Na neblina vaga de velhos sons um fraco ponto de luz aparece: a fala da alma vai logo ser ouvida. Juventude tem fim: o fim está aqui. Não vai ser nunca. Você sabe disso muito bem. E daí? Escreva, desgraçado, escreva sobre isso! Pra que mais você serve?
"Por quê?"
"Porque de outra forma eu não poderia mais ver você."
Desmoronamento – espaço – eras – folhame de estrelas – e céu sumindo – silêncio – e silêncio mais profundo – silêncio de aniquilação – e a voz dela.
Non hunc sed Barabbam!(8)
Despreparo. Um apartamento nu. Nojenta luz do dia. Um grande piano preto: túmulo da música. Equilibrado em sua borda um chapéu de mulher, com flores vermelhas, o guarda-chuva, fechado. Seu brasão: capacete, escarlate, e lança sem ponta sobre um fundo, preto.
Dedicatória: Me ame, ame meu guarda-chuva.
